(falta um título, eu sei)


É daqui a pouco. Umas duas horas e estaria eu saindo, toda sem vergonha, da barriga dela. Ela que brigou com o médico e negou até o fim estar com uma infecção.
Quem chega ao mundo tendo sido confundida com uma infecção não deve ter muito futuro não, pensou enquanto via o pai ligar a torneira pra acalmar seu choro estridente...Só porque já sabia. Sabia que dali pra frente não seria tão mais fácil assim, não seria colo de mãe, violetas no quintal nem dula na barriga que resolveriam seus problemas. Teria muito joelho errado pra ralar, braço pra quebrar e, quem diria, até muito amor pra sofrer.
Nunca foi de escandalizar muito, nem externar o que passava pela sua cabeça. É que passava muita coisa. E depois de tanta coisa passar, você chega nos vinte e poucos anos e começa a pensar que devia ter gritado era na primeira confusão que teve. Quem sabe essa seria a porta de compreensão para todas as outras milhões que surgiriam? Sem contar na falta de coerência na vida, pensamentos e até nesse esboço aqui, feito em folha antiga de fichário. Fichário...
Mas é justificável: está chegando a hora. Falta pouco menos de uma hora pra eu sair daqui de dentro. Estou com muito medo, as vozes têm ficado cada vez mais altas e tudo que já passou nesses vinte e três anos roda pela memória. É quase um parto. E não parece ser normal.

3 comentários:

Rosana Tibúrcio disse...

Puta que pariu. Falo mais nada!!!

Laura Reis disse...

fala, mamãe. fala.

Marcela Martins disse...

Mas gente! Se não de um parto de verdade que cê tá falando... Fica a dúvida.