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Hidratante coringa


Acordou no meio da noite e, como sempre, bebeu seu gole de água e foi direto ao banheiro esvaziar a bexiga. No meio do caminho, logo após lavar as mãos, sentiu os lábios secos naquele ponto em que se você sorri mais aberto, vai abrir uma frestinha e deixar aquele gostinho de sangue, então foi direto na cômoda pegar o hidratante labial.
Bebeu mais um gole de água, voltou pra cama e acordou só quatro horas depois. Foi até o banheiro jogar aquela costumeira água no rosto pra acordar de verdade, quando deu um berro ao olhar pro espelho: tinha trocado o hidratante labial pelo batom vermelho.
Gargalhou por mais alguns minutos, ali no banheiro, sozinha, fantasiada de coringa.

Espera só um pouquinho..

As pessoas normalmente não gostam de esperar: na fila, no médico, a visita chegar.
Eu adoro. Sinto que esses são os únicos momentos em que eu não sou obrigada a estar fazendo alguma coisa. Eu só preciso esperar e, por esperar, a próxima ação deve ser do outro e eu acabo sendo coadjuvante naquele episódio.
E, por não precisar tomar uma atitude ou agir de forma épica, memorável ou minimamente útil, eu me sinto mais livre.
E estando livre é como se eu me tornasse também mais produtiva, pois parece ser o momento exato em que minhas listas mentais são construídas e a cabeça borbulha de ideias para novos posts nesse blog, por exemplo.
Pois, por não serem obrigadas a fazer nada nesse meio tempo de espera, é que as pessoas normalmente se sentem tão estranhas. Afinal, parece estranho não fazer nada nesse mundo tão acelerado, tão exigente, tão etcetera.
Eu confesso que sinto um pequeno orgulho de mim mesma por sempre ter feito muita questão de ter momentos só pra mim, de não me sacrificar tanto pelo outro, especialmente quando o outro é corporativo e, infelizmente, não está tão preocupado assim com você também.
E dou graças a Deus que temos vivido um processo de desendeusamento desse esquema tão workaholic da vida, porque não, a gente não merece nem precisa viver em função de estar ou parecer ocupado e, apenas por esse motivo, também parecer muito bem sucedido.
Eu prefiro esperar só um mais um pouquinho pra respirar direito.

O andar de cima

Um casal, uma criança e duas ou três moedas caindo todos os dias por volta de sete e meia da manhã.
Era batata: não precisava colocar despertador, era só enrolar um pouquinho pra levantar, deu sete e tanto, lá vinha o barulho que assustava e despertava.
Já pensei que fosse a moeda da calça jeans de alguém caindo - só pode andar de ônibus nesse caso pra ter moeda pra cair todo dia assim; já pensei que fosse bolinha de gude de criança - de repente é o jeito dela avisar pros pais que acordou; já pensei que pudesse ser algum adorno que exista na mesa de cabeceira ou no banheiro, com o qual infelizmente o casal ainda não teria conseguido conviver direito. Mas, vai saber, poderia ser uma outra coisa bem aleatória.
No último mês lembro que trombei com a família nas escadas e eles estranharam um pouco, porque além de eu claramente estar com pressa e tê-los deixado passar, fiquei bem vidrada em cada um tentando encontrar uma justificativa pro barulho insuportável, em algum acessório ou característica dos três. Então a esposa começou a frequentar a mesma academia que eu e nos cumprimentávamos diariamente. Eu, muito simpática, escondia o ódio daquele barulho em meu olhar e abria um largo sorriso de vizinha, todas as manhãs.
Na última sexta, me assustei mais do que o normal e decidi que do próximo encontro não passava, eu precisava perguntar o que estava acontecendo. Passaram dois dias e, enfim, os encontrei no térreo. Quando me preparava para o sorriso de cumprimento, ouvi um “sentiremos muito sua falta” pra vizinha da frente.
Se mudaram e eu nunca soube nem seus nomes nem que diabos de barulho era aquele que me acordou por dois anos seguidos.
Mas pelo menos eu, ali nesse caso, não sentiria falta de nada.

É verdade que tem gente que gosta de trabalhar?


Por muito tempo eu acreditei nessa ideia de que eu precisava encontrar, de uma vez por todas, a minha grande vocação, aquilo que eu nasci pra fazer porque “se eu não fizesse isso eu não me reconheceria mais”. Deve ser incrível esse mundo ideal de trabalhar com o que se ama, receber bem por isso e ter a saúde mental em dia. Porque, claro, mesmo que isso aconteça com todo mundo à sua volta, você tem que lembrar que: você não é todo mundo. Então isso pode não acontecer com você (ou comigo), mesmo. E tá tudo bem (não, não tá muito…)
E, assim, essa parcela dos que “não é todo mundo” está ali, com suas carteiras assinadas, seus boletos do MEI em dia, com o único objetivo de pagar suas contas, sobreviver e, enfim, curtir um pouco do que quer que seja prazeroso para si.

Já discuti com a minha família sobre ninguém ter tido um empreendimento , uma empresa ou um botequim, porque, com certeza, eu seria uma ótima filha do dono que tomaria todas as rédeas do tesouro da família com muita propriedade, quando na verdade eu só queria mesmo tocar e sugerir melhorias para uma coisa que foi criada por alguém com quem tenho intimidade o suficiente para dar palpite.

Outra opção seria ter nascido herdeira e precisar única e exclusivamente aprender a administrar as minhas finanças e as minhas expectativas - que, convenhamos, não seriam baixas já que não deve ser fácil pro psicológico de quem nasce com tudo de mão beijada ter um dia, do nada, alguém te falando pra assinar uma ata ou pegar uma tesoura na mesa do lado, não é verdade?

Quer dizer.. eu não acredito, mesmo, que tenha alguém que goste de trabalhar. A pessoa na verdade gosta é de receber o salário no final do mês, o elogio do chefe porque fez um bom trabalho, o reconhecimento de um colega que conta pros demais o seu grande último feito, a sensação de poder mandar ou desmandar alguém fazer alguma coisa, os louros de fazer parte da empresa num período em que ela é premiada pelo setor, esse tipo de coisa mesmo. Pura vaidade. No fim das contas, ninguém gosta de trabalhar mesmo não. A gente gosta mesmo é de dar trabalho pros outros.

Cola o teu desenho no meu

Gosto de pensar que colagens, de alguma maneira, são uma analogia perfeita para o que é a nossa vida, no fim das contas.
Recortes de pequenas e importantes partes coloridas, significativas, marcantes e bonitas do que já passou e do que está presente, além de aspirações para o que se quer.
Tudo ali, junto, dividindo um mesmo espaço, ilustrando as lições do que vivemos e o que permanece vivo na memória, seja por um sentimento que nunca mudou, um detalhe que parece bobo aos olhos do outro ou a lembrança do que alguém um dia disse e que acabou fazendo sentido de alguma maneira pra gente.
Gosto de pensar também que, ao juntar a nossa colagem com a de outro alguém, o resultado só pode ser mais poesia ainda. E eu também gosto de poesia.
(Mas prefiro colagens)

Menos despertador, menos..

A gente combinou que seus últimos dias na cidade seriam nossos, do início ao fim, íamos aproveitar tudo o que ainda não tínhamos feito juntos: ir no parque novo da cidade ver o mirante, visitar o museu a céu aberto, voltar naquele restaurante que tínhamos ido no primeiro encontro, além de curtir muitos beijinhos e carinhos sem ter fim.
Estávamos empolgadíssimos com a programação e prontos para o nosso próximo destino daquela sexta-feira, quando o meu despertador tocou. Acordei, aqui na vida real, sem você do meu lado, me dando conta de que já estávamos longe há mais 2 dias. Você precisou ir antes e nunca cumprimos aquela programação. Que vontade de quebrar esse despertador!

Como você sabe que os 30 estão chegando

Um dia você vai dormir pensando “Nossa, eu deveria ter arrumado essa casa na sexta-feira, porque amanhã é segunda e o dia será muito corrido” e mesmo assim planeja acordar cedo, lavar os cabelos e, pelo menos adiantar a retirada da roupa de cama direto pra máquina de lavar.
Acontece que você dorme tarde e não consegue acordar cedo pra adiantar essas coisas, então pensa “tudo bem, hoje não tem reunião, então saio do trabalho às 18h e vou conseguir passar no supermercado, varrer a casa e fazer uma comida pra almoçar em casa amanhã, já que precisei marcar dentista pro horário de almoço também”.
Então você sai mais cedo do trabalho e jura que é a maior sorte do mundo porque, coooom certeza, vai dar pra fazer tudo o que tava planejado.
Só que aí, chega 23h10 e você se dá conta que aquele compromisso que fez de escrever, pelo menos um texto por dia, precisa ser cumprido mesmo que você esteja exausta, sem ter conseguido lavar os cabelos porque gastou as últimas 4 horas colocando roupa pra lavar, varrendo a casa, trocando a roupa de cama, fazendo o jantar, jantando, lavando a louça, estendendo a roupa e constatando, mais uma vez, que essas horas do dia só podem estar erradas, não é possível..
Aí noutros dias você só chega em casa, come, deita pra ver uma série e deixa “as louças de molho pra amanhã”, mesmo. É a liberdade de fazer suas coisinhas do seu jeito, sem cobranças de ninguém (além do chefe, quando chega no trabalho). Com certeza os 30 estão chegando.

Como escrever um livro em um semestre

(Não podemos deixar essa obra-prima, escrita há quase 10 anos, morrer. É hora de exaltar o primeiro livro que escrevi - em um semestre)

O porquê

Você, universitário com a vida social mais agitada que conteúdo de liquidificador ligado à última potência; você que não sai de casa nem mesmo para sair de casa, mas gosta de entretenimentos divertidos nas horas vagas, como internet, DVDs, seriados; você que trabalha quinze horas por dia e, no final-de-semana, só tem que fazer mais três trabalhos da faculdade e pensar [porque raramente é possível] em estudar para alguma das três provas que terá durante a semana; você que nunca escreveu uma cartinha de amor na vida; você que escreveu, no máximo, um termo para pesquisar no Google;
vocês todos [e eu] jamais pensariam numa coisa como essa.
Você até já se esqueceu do que estou falando né? Eu não! Voltando ao título desse livro de [in]utilidade pública: você jamais pensaria em escrever um livro em um semestre. Quiçá um livro de quarenta páginas. Ou exatas ou mais. A não ser que você tenha perdido uma aposta [nerd] e tenha que pagar escrevendo dois livros por ano ou, ainda, tiver apostado que escrevendo um livro em seis meses, seu amigo [amigo?] vai te pagar dois milhões de dólares.

Pois é, meu caro, após essas considerações devo dizer que essa ideia, é claro, não partiu de mim [nem de você], mas sim de um querido professor da faculdade.
Portanto, futuros alunos dele, PREPAREM-SE e fiquem com uma bela dica: este livro. Ele lhe será muito útil, seja no aproveitando das dicas (aprovadas ou não), seja para pensar no fato de que não apenas você se ferra na vida, ou apenas para passar o tempo e ver como eu e meus colegas nos ferramos em um semestre.

FIM DO CONTEÚDO GRATUITO (brinks)


Sério, meus amigos: recomendo muito essa leitura par se distrair desses assuntos complexos da vida, das notícias graves dos jornais e do peso que é ser humano nessa atual conjuntura. Leião:

COMO ESCREVER UM LIVRO EM UM SEMESTRE
Por Laura Reis

Valorize sua caneta BIC

Alê estava em busca de bugigangas naquelas lojinhas que tem de tudo um pouco, quando encontrou uma linda caneta com a ponta de diamante.
Logo pegou o bloquinho que carregava na bolsa pra testar como era a tinta e a ponta da sua nova amiga, já imaginando todos os títulos lindos que registrariam juntas nos cadernos da faculdade.
Tentou de todas as maneiras possíveis abrir aquela caneta que, de alguma forma, parecia nem ter tampa e não teve sucesso. O bloquinho na mão só complicava, então guardou ele de volta na bolsa. Nesse momento sentiu um belo olhar de reprovação vindo da vendedora que a observava.
Foi quando tomou a decisão mais sensata de todas que foi: colocar a caneta de volta no lugar? Não. Perguntar como fazia pra abrir? Também não… Isso mesmo, foi direto no balcão e pagou doze reais naquele objeto que não sabia como funcionava.

Claro que chegando em casa, enquanto ria de nervoso, Alê contou a história pra irmã que com apenas um movimento abriu a caneta. Pra fazer valer esse carão que passou, a única coisa que poderia fazer era usar essa tal caneta até acabar a tinta que, no caso, foi dois dias depois, mesmo.
Resumo da história: nada como a boa e velha esferográfica.

Pensou, tá pronto.

Imagina se a gente pudesse fazer as coisas na mesma velocidade em que a gente pensa que precisa fazê-las?

Ontem, por exemplo, enquanto eu comia uma crepioca de última hora, pra não viajar com o estômago vazio, eu consegui deixar tudo em ordem pra só sair de casa: coloquei o pijama na mala, mandei mensagem cobrando o endereço, escovei os dentes, tomei banho, me arrumei, recolhi os panos no varal, fechei a mala direitinho e praticamente já estava na porta do ônibus, pronta pra embarcar.

Só que o que foram cinco minutinhos em pensamento e refeição, no fim das contas durou toda a meia hora seguinte. E se a gente pensar bem, não estamos com todo esse tempo sobrando pra fazer tudo o que precisa ser feito, não.

Então assim: está passando da hora dessa galera que inventou o tal do aspirador robô que fica rodando pela casa enquanto a gente trabalha, trazer pra nossa realidade um personal faz tudo bem esperto, se possível já conectado com os nossos pensamentos pra gente nem precisar dar a ordem.

Se você também ficou perdido lendo isso, na dúvida cruel se sou uma grande visionária mesmo ou se só estou naquele estágio complexo de sono em que a gente perde um pouco a noção da realidade, saiba que já são altas horas da madrugada mesmo e que estou aqui me esforçando com muito amor, porque até pra fazer texto a gente tem que parar tudo e escrever coisas muito interessantes, numa folha em branco, e do nada. Do na da. 

Quisera eu só pensar no texto e já ficar pronto. Por que imagina só se a gente pudesse fazer as coisas na mesma velocidade em que a gente pensa que precisa fazê-las?

Os bastidores das dicas infalíveis

Sabe essas dicas que todo mundo fala, pra você não esquecer aquela ideia incrível que teve antes de dormir, na hora do banho ou no caminho pro trabalho?
“Ah, deixa o gravador por perto”, “Manda uma mensagem pra você mesma no WhatsApp”, “Tenha um caderninho sempre à mão”, porque sempre tem aquele argumento de que, quando você registra, é como mágica: aquela preocupação da sua cabeça passa a ser do p a p e l.
Acontece que, normalmente, essas coisas não funcionam pra mim, porque a noite o celular fica do outro lado do quarto ou acontece como da primeira vez que tive uma ideia incrível e anotei tudo num papel, minutos após desligar as luzes do quarto: de manhã, percebi que a caneta que esvaziou minha mente estava totalmente sem tinta.
A ideia, claro, evaporou enquanto eu a entregava com todo o meu coração para o papel que, sequer!, salvou as marcas da pressão da escrita.
Isso ninguém conta.

Anestesia nunca é fácil

Na última cirurgia de Rosaninha, me deixaram acompanhá-la na enfermaria enquanto ela saia da anestesia - processo que a deixa bem atordoada: quer sempre alguém segurando sua mão, colocando a mão na testa pra acalmar... há boatos de que trauma do pós anestesia de quando eu nasci. Ou seja.

Na sala de espera em que eu aguardava, era muito frio, então além da minha roupa (calça e blusa) eu vestia a minha blusa de frio e a blusa de frio daquela senhora que estava em cirurgia. Bem linda.
Então me chamaram para acompanhá-la nesse processo pós cirúrgico/anestésico e, para tal, me deram uma roupa como a de auxiliar das enfermeiras para colocar por cima da minha: touca na cabeça, protetor de pé, aquela calça superlarga e camisa idem. Daí fui eu, com meus óculos e minha preocupação, encontrar Rosaninha.

Ela estava realmente atordoada, não sossegava a mão, colocando na boca que estava muito seca e na cabeça, como se estivesse doendo muito. Eis que me sento ao seu lado, seguro sua mão e segue o diálogo:
- Oi, to com um pouco de medo, você vai segurar minha mão?
- Claro, não vou sair daqui
- Não sai não, tenho medo de passar mal
- Não vou sair.. vim pra ficar com você
- Obrigada... to um pouco agoniada, fica segurando a minha mão
- Pode deixar que não vou soltar
- Coloca a mão na minha testa um pouco?
- Ela tá um pouco gelada... porque eu tava no frio, vou colocar devagar
- Nossa, tô ouvindo tudo que você tá falando, que beleza..
- Bom demais... cê tá se sentindo bem?
- To sim...Quanto tempo levou a cirurgia?
- Uma hora e meia, mais ou menos
- Nossa, foi rápido, pensei que fosse demorar mais.
- Eu também, mas deu tudo certo…
- Fica aqui comigo mesmo viu? To com medo de passar mal.
- Não preocupa não… e se você passar mal, a gente tá no hospital, então vai dar certo - e ri como quem fazia graça
- Ah, menina, vou te socar
- Você tá com dor de cabeça?
- Não, só boca seca e um pouco agoniada…
- Daqui a pouco você vai pro quarto
- Vou rezar por você, tá bom?
- Mas pra mim? Pra quê? Reza pela Dra. Tatiana, que te operou tão direitinho…
- Vou rezar pra ela sim, mas também quero rezar pra você.
- Tudo bem…
- Qual seu nome?
- (Ah, pronto, essa faixa na cabeça dela é porque cortaram alguma coisa errada e tiraram a memória.. Jesus… ela não lembra de mim. Deve ser a anestesia, ela sempre fica estranha…) É Laura
- Laura... Laura é o nome da minha filh... uai Laura, é você?
- (No caso, sim, desde que entrei há uns 20 minutos) Exatamente, senhora.

Rimos muito. Apanhei.
Mentira, depois disso ela decidiu que eu fico muito (bem disfarçada e) linda de enfermeira então eu deveria, sim, fazer o curso de enfermagem ou ser irmã da médica (?) que, graças a Deus, havia chegado me possibilitando um momento de respiro desse trauma pós anestesia que, com certeza, agora já era meu.

Vamos conversar?

Foi num sábado que tivemos a fatídica conversa: continuar ou terminar. Acontece que, pelo que já vi e ouvi por aí, isso é comum entre casais. Assim como também é comum o tal do terminar e voltar várias vezes. Assim como também é comum nunca conversar sobre algum problema na relação. E assim como foi com a gente (dizem que também é comum): uma torta de climão sem definição.

Foi num segundo que eu comecei a pensar em tudo. Me sentava e pensava por que é que eu não estava me sentando ao seu lado; eu me olhava no espelho e pensava por que é que eu não estava me arrumando para sair com você; eu comia e pensava por que é que a vida tem que ser tão injusta; eu deitava e pensava em como dizer aos meus tios que, assim como muitos casais, nós também estávamos pelas tabelas.

Foi num domingo que eu pirei de vez. Me tornei aquela pessoa que nunca tinha sido. Como seria a sensação que esse pessoal tem em ficar mandando mais de 7 mensagens e, mesmo sem resposta, mandar mais 7? Como seria o nó na garganta desse povo escandaloso que chora copiosamente durante um banho em um horário aleatório apenas porque nada mais faz sentido? Como seria a agonia em ficar vigiando os checks das mensagens para saber se saíram, se chegaram, se foram lidas? Pois todas essas questões foram respondidas por mim. E eu, obviamente, não gostei de nenhuma das respostas. Santa ignorância.

Foi num piscar de olhos que encontrei infinitos motivos para aquela situação: outra mulher, um cara, as olheiras, as alturas, as críticas, a falta de interesse, um mau amigo, a falta de presentes, as ligações, os horários marcados, o excesso de mensagens, a ausência em eventos, a presença em eventos, eu, você, o mundo, o resto.

Foi num salto que acordei desse maldito sonho de segunda-feira. Me levantei e decidi que precisávamos, enfim, ter a fatídica conversa.

Leve

Não sei você, mas às vezes tenho vontade de extravasar. Nem sempre é de raiva. Por vezes também quero externar alguma alegria de maneira intensa e perceptível.
Mas eu não tenho o costume de dar murro em parede, travesseiro ou quebrar pratos. Por vezes aperto as mãos ou faço uma força descomunal usando nada mais nada menos que meu corpo e as expressões faciais, normalmente direcionada ao espelho.
Tem dias que estando ali, de frente para aquele mesmo espelho, durante alguma reflexão me lembro de um vacilo cometido contra mim ou de uma coisa bem linda que aconteceu a meu favor e, sem muito pensar, só quero dar um jeito de colocar isso pra fora mesmo, deixar essa marca no mundo. Quando esse tipo de situação me acontece, automaticamente eu jogo água da torneira no espelho. Não exatamente colocando um punhado na mão e jogando, quase como lavando o espelho, na verdade é depois de molhar as mãos que as fecho e abro todos os dedos como se fossem muito mais que dez e arremesso pingos aleatoriamente naquele vidro refletor.
Depois de feito isso, visualizo meu rosto meio deformado pelos pingos de água que compõe aquele quadro e essa imagem invariavelmente me faz sorrir, seja por desespero ou por pensar quão patético isso pode parecer a outros olhos, além dos meus.

Não sei você, mas só de pensar nessa imagem, já me senti mais leve. 

Foi ali que entendi

Já tínhamos passado por algumas conversas sérias, algumas discussões sobre pontos positivos e negativos e, nessas pontuais discussões, ficou decidido que valeria a pena, sim, tentar mais um pouco. Algumas mensagens a menos e aqueles abraços ao nos encontrar cada vez mais automáticos e menos sinceros. Mas foi naquele dia, com o filme passando na TV da sua casa, que quando precisamos buscar uma informação no seu celular, me toquei que, assim como eu, você também havia tirado o nosso papel de parede. Fiquei me perguntando se teria sido no mesmo dia que eu tirei o meu, se teria sido na nossa primeira conversa séria, se teria sido ali mesmo, durante o filme, se teria sido depois de ter visto que eu já havia tirado o meu, se teria sido ontem quando ficamos mais de 24 horas sem nos ver ou se teria sido na semana passada quando eu estava longe e meus boa-noite automáticos teriam chegado ao limite. Foi ali, com essa ausência de um retrato dos dois, nos aparelhos de ambos, que notei estarmos definitivamente tão tão distantes. Foi ali que entendi que não tinha mais como ser. Foi ali que entendi que já era.

Intensivão de como não ser o Atendimento

“Sua missão é nos acompanhar e colher todo tipo de informação relevante, para construirmos a marca da banda, apresentar uma identidade dos caras nas redes sociais, esse tipo de coisa.”, briefing simples, qualquer atendimento capta. Eu talvez não.

Alguns quilômetros, horas, conversas e músicas depois estávamos todos da agência junto à banda numa boate para espantar os males e relaxar depois do trabalho. Um lugar relativamente pequeno para tal cidade, uma recente social media relativamente indiferente para qualquer coisa, um público relativamente desanimado para tal evento e um guitarrista relativamente pronto para destilar qualquer comentário malicioso travestido de cantada barata.

Eis que me deparo com um beijo acontecendo do nada e um ruído parecido com um chefe dizendo no meu ouvido “eu disse para você conhecer os caras, mas não precisava ser assiiim também”.

Depois disso, obviamente eu, que nunca estive nesse tipo de situação, já estava imersa naquela onda, considerando a possibilidade de passar o feriado de carnaval com o pessoal todo, inclusive o novo amor eterno que acabei de conhecer. Algumas mensagens, dias e malas depois estava eu numa barraca posta num quintal com cachorro e criança correndo de um lado para o outro, convivendo com uma família nova e nem me preocupando com a falta de sinal do meu celular que só soube armazenar centenas de canções daquele pequeno novo paraíso.

Alguns dias, beijos, risos, canções, familiares-indo-embora-e-deixando-só-os-fortes-ali-naquele-sossego-de-carnaval depois, eis que o telefone do caseiro toca e não é de ver que é exatamente a senhora minha mãe a fim de receber qualquer mísera informação sobre sua filha que, repentinamente, vestiu uma camisa de “viva o momento, deixe inclusive o trabalho para trás...”? Pois bem.

Meses depois, o job da agência terminou. Anos depois, o romance também. Hoje, estamos aqui, eu e minha leve nostalgia de trabalhar nesse tipo de campanha, colher esse tipo de briefing e escrever esse tipo de redação: não planejada, mas capaz de garantir um bom lugar no coração dos consumidores.

Risos.

Tomara

Tomara que ele não se arrependa. Espero que ele seja muito feliz. Eu mereço coisa melhor. Ainda bem que foi antes do aniversário dele. Imagina se eu tivesse comprado aquele relógio? Ele bem que podia se arrepender. Será que ele vem falar comigo amanhã? Se vier, vou ignorar. Queria mandar uma mensagem qualquer e completar com um "nossa..esqueci que acabou!". Consigo arranjar alguém melhor. Mas nunca vai existir mais ninguém assim. Nunca gostei daquelas manias. Sempre quis alguém mais tranquilo. Mas ninguém ri de tão pouca coisa. E ninguém vai achar graça em nada do que ele achar graça. Tomara que ele encontre alguém ok. Eles podiam combinar na hora de ver filme, ouvir música e tomar uma cerveja. Ela bem que podia implicar com alguma coisa bem boba que ele faz. Se eu vir uma foto no Fotolog de alguém, eu morro. Já morri por outras pessoas e continuo aqui achando que vou morrer por mais outras. Morri três vezes só em pensar que isso tinha acabado. E, na verdade, nunca começou direito. É que, aos 20 anos, morrer parece que te deixa mais vivo. Quero é viver muito para matar todo mundo, inclusive ele. Certeza que, mesmo estudando exatas, ela toca violão, tem tatuagens e um animal de estimação que dorme na mesma cama. Coitado dele quando ela tatuar o nome dos dois com um coração mal feito. O armário dela deve ter um monte de salto detonado e vestido de telinha. Certeza que ainda usa aquele sutiã com alça de silicone nos fins de semana. E pra completar, a cara dura de base mal espalhada não deve ser limpa antes de dormir. Ele vai ficar irritadíssimo com os restos de rímel e corretivo no travesseiro. Espero que ela pise no pé dele durante os forrós que ele adora e fale com algum sotaque que ele fique levemente incomodado. Então ele vai lembrar que comigo não tinha dessas coisas. Certeza que vai ficar pensando quando foi que achou que podia não dar mais certo. Deve ter pensado que podia ter coisa melhor. Ele tem que ser feliz, né? É. Tomara que ele se arrependa.

Pelas metades

Abro o bloco de notas só porque o Word tem me dado muito trabalho com suas pesadas e impressionantes configurações. Percebo que abrir um bloco de notas supõe o início de uma escrita, então assim faço, conforme manual.
Os olhos continuam caindo de tanto sono então sugiro a mim mesma me levantar para tentar acordar. Uma ida ao banheiro, olhar no espelho e ver que o cabelo definitivamente não ficou melhor ao longo do dia. Tudo como o esperado.
Tentativa frustrada de distração porque o banheiro está fora de uso, então só encho a garrafa de água e volto ao meu lugar, porque a preguiça é demais para ir até o próximo banheiro disponível.
Escrevo uma, duas, dez linhas. Já descrevi metade da minha vida e as frases começam a ficar sem sentido. As teclas passam a ser tocadas sem muita força. Piloto automático. Uma piscada mais intensa, duas piscadas, pesquei. De susto, acordo desse pesadelo leve de meio segundo que mais pareceu dez minutos. Releio o que foi escrito e obviamente não faz sentido algum. Não me lembro onde parei, no trabalho. Não me lembro o que queria dizer, com esse bloco de notas aberto. Não me lembro que dia é hoje, quarta-feira?
Desisto. Apago tudo que foi escrito, assim é melhor: o documento todo em branco. Pensando bem, não há o que escrever. Bloco de notas fechado, o telefone toca. Mais um cliente pronto para perguntar porque é que aquela informação que passamos está incompleta, de novo. “É que, por aqui, é tudo meio assim mesmo, moço, pelas metades”.


Engano Musical

Eram muitas conversas no MSN trocando piadas infames, cantadas baratas, ideias infalíveis e um monte de música cheia de carga emocional. Com essa melodia, eu quero te dizer isso. Vê esse trecho depois do refrão? É como me sinto hoje. Lembra daquele dia? Se eu pudesse musicar, seria assim oh. E ia música e voltava música. Bem arcaico, bem uma música a cada meia hora, processando naquela janela que às vezes chamava atenção e que ia caindo nos nossos Downloads para serem organizadas em nossas pastas perfeitas em ordem alfabética. E todas seguidas de um peraí que vou ouvir de novo, nossa essa parte é boa mesmo, e essa então melhor ainda, gostei demais, não conhecia. Depois disso vinham os depoimentos, os scraps, os bilhetinhos trocados em sala de aula, as SMSs de madrugada, vários com trechos das últimas tocadas em nosso MSN musicalmente compartilhado - que fazia questão de exibir “O que estou ouvindo” pra meio mundo ver que éramos um casal feliz musicalmente.

Mas foi numa conversa qualquer no meio da aula de marketing que você confessou que, pelo menos 80% das músicas que eu te mandava, você já tinha ou já conhecia. Jogou assim, como quem não quer nada que, enquanto de cá, eu ia aprendendo um monte de outros ritmos, de novos artistas, de formas diferentes de dizer uma mesma coisa; do lado lá, você praticamente só excluía o arquivo do download, mesmo depois daquela meia hora processando, porque a verdade é que seu computador já conhecia o CD completo, de cor. Você se fazia de sonso, pra agradar e não acabar com a minha graça, eu me sentia uma grandessíssima conhecedora musical com a porta aberta pra tudo que era novo e, nós dois, coitados, já vivíamos ali uma ilusão que se seguiria pelos próximos cinco meses quando, enfim, avistei trechos de uma das poucas músicas que você, definitivamente, não conhecia antes de mim, sendo enviada pra uma terceira pessoa. Não tinha por que terminar essa canção.

Extracurricular

Na minha quase uma década de estágios + empregos posso afirmar, com certeza, que fiz muito mais do que vocês podem conferir no meu currículo. Porque muitas vezes as funções designadas ao empregado e descritas em vagas abertas ou em sites institucionais com perfil de colaborador são apenas para cumprir tabela e te ajudar a explicar “o que é que você faz lá, mesmo?”. No fundo, no fundo, todo trabalhador tem um quê de dono da empresa, de filho do dono, de enteado da madrasta ruim ou de sogro, mesmo. Sabe aquela camisa que às vezes até te obrigam a vestir? Então: há que se lavar, pendurar, passar e costurar – talvez, e quem sabe principalmente, até a dos outros.

Eu, por exemplo, além de escrever posts com trechos de músicas sertanejas, responder dúvidas sobre celulite e estruturar muito spot sobre agropecuária, já tentei convencer pessoas que aquele era o melhor conjunto de talheres e fiz muito perfil institucional para site de empresa (que ninguém nunca deve ter lido). Só que realmente isso estava nos meus roteiros, diferente daquela vez em que precisei, por exemplo, sair correndo da agência para comprar papel higiênico porque o cliente perguntou onde era o banheiro e minha colega, por obra divina, se lembrou que havia acabado com o papel.

Também já levantei muita porta de ferro, fiz café pros outros, viajei pra conquistar cliente, fui confidente de fã de Luan Santana, varri e catei cacos de taças que eu mesma quebrei, carreguei mudança, organizei aniversários, quebrei espelho de necessaire tentando fechar uma janela, recolhi dinheiro equivalente ao meu salário para presentear outra pessoa, escrevi avisos de banheiro fora de uso, fiquei horas trancada do lado de fora porque ninguém tinha a chave e o chefe não avisou que não iria aquele dia, peitei muito coordenador, carreguei material pros bastidores de um espetáculo, participei de aspirações de rallys pra não conseguir o tal cliente lá do outro lado do estado. E, claro, nada disso terminará por aí. Ainda bem.