O andar de cima

Um casal, uma criança e duas ou três moedas caindo todos os dias por volta de sete e meia da manhã.
Era batata: não precisava colocar despertador, era só enrolar um pouquinho pra levantar, deu sete e tanto, lá vinha o barulho que assustava e despertava.
Já pensei que fosse a moeda da calça jeans de alguém caindo - só pode andar de ônibus nesse caso pra ter moeda pra cair todo dia assim; já pensei que fosse bolinha de gude de criança - de repente é o jeito dela avisar pros pais que acordou; já pensei que pudesse ser algum adorno que exista na mesa de cabeceira ou no banheiro, com o qual infelizmente o casal ainda não teria conseguido conviver direito. Mas, vai saber, poderia ser uma outra coisa bem aleatória.
No último mês lembro que trombei com a família nas escadas e eles estranharam um pouco, porque além de eu claramente estar com pressa e tê-los deixado passar, fiquei bem vidrada em cada um tentando encontrar uma justificativa pro barulho insuportável, em algum acessório ou característica dos três. Então a esposa começou a frequentar a mesma academia que eu e nos cumprimentávamos diariamente. Eu, muito simpática, escondia o ódio daquele barulho em meu olhar e abria um largo sorriso de vizinha, todas as manhãs.
Na última sexta, me assustei mais do que o normal e decidi que do próximo encontro não passava, eu precisava perguntar o que estava acontecendo. Passaram dois dias e, enfim, os encontrei no térreo. Quando me preparava para o sorriso de cumprimento, ouvi um “sentiremos muito sua falta” pra vizinha da frente.
Se mudaram e eu nunca soube nem seus nomes nem que diabos de barulho era aquele que me acordou por dois anos seguidos.
Mas pelo menos eu, ali nesse caso, não sentiria falta de nada.

Nenhum comentário: