Pelas metades

Abro o bloco de notas só porque o Word tem me dado muito trabalho com suas pesadas e impressionantes configurações. Percebo que abrir um bloco de notas supõe o início de uma escrita, então assim faço, conforme manual.
Os olhos continuam caindo de tanto sono então sugiro a mim mesma me levantar para tentar acordar. Uma ida ao banheiro, olhar no espelho e ver que o cabelo definitivamente não ficou melhor ao longo do dia. Tudo como o esperado.
Tentativa frustrada de distração porque o banheiro está fora de uso, então só encho a garrafa de água e volto ao meu lugar, porque a preguiça é demais para ir até o próximo banheiro disponível.
Escrevo uma, duas, dez linhas. Já descrevi metade da minha vida e as frases começam a ficar sem sentido. As teclas passam a ser tocadas sem muita força. Piloto automático. Uma piscada mais intensa, duas piscadas, pesquei. De susto, acordo desse pesadelo leve de meio segundo que mais pareceu dez minutos. Releio o que foi escrito e obviamente não faz sentido algum. Não me lembro onde parei, no trabalho. Não me lembro o que queria dizer, com esse bloco de notas aberto. Não me lembro que dia é hoje, quarta-feira?
Desisto. Apago tudo que foi escrito, assim é melhor: o documento todo em branco. Pensando bem, não há o que escrever. Bloco de notas fechado, o telefone toca. Mais um cliente pronto para perguntar porque é que aquela informação que passamos está incompleta, de novo. “É que, por aqui, é tudo meio assim mesmo, moço, pelas metades”.


Um comentário:

Rosana Tibúrcio disse...

achei que era só eu que tava quessa doença. Bem-vinda ao mundo dos incompletos.