Da janela de frente

Do meu bloco, avisto sua janela semiaberta e os flashs da TV acompanhando a programação de sábado, interrompida por um toque de celular quase silencioso, oposto a conversa que se estende, gritada. Sua avó, aparentemente surda, precisa que o interlocutor se esforce mais do que o de costume para que seja ouvido do lado de lá. 

O banho, normalmente às 20h, é a primeira coisa que faz ao chegar em casa. Os cabelos comumente presos em um coque de toalha denunciam sua inquietude com os fios que, mesmo sem necessidade, são lavados diariamente. Nesse momento, despe-se de qualquer vergonha, pois escolhe as roupas para usar ignorando a possível visão de todos os vizinhos de frente, estáticos com aquele corpo sem qualquer proteção. Escolhe vagarosamente as partes de baixo enquanto alguém conversa algo sem importância, sentado a sua cama. É assim todos os dias e o que se segue é sempre uma risada mais aguda, um choro de bebê e o silêncio do cômodo, cuja população é transferida para a cozinha, de onde não tenho visão.

Naquele dia, durante a escolha pelas roupas, a janela, enfim, foi fechada e fechada foi apenas porque lá do seu lado devem ter avistado algum vizinho espião, esperando só o momento certo de flagrar aquele flash de frente, mais uma vez.

O que ouço a seguir é estranho: um grito, um tiro, não consigo definir. Não sei porque cargas d’água continuei olhando aquela janela fechada, já que não consegui decifrar nada e isso só me agonizava. Mas ainda não sabia o número daquele apartamento para solicitar que alguém fosse verificar e, naqueles poucos segundos que me dediquei ao desespero das mãos atadas, ouvi um telefone longe tocar e em seguida mais alguns gritos. 

Outros vizinhos escancaram suas janelas e eu, definitivamente, desejava não fazer parte daquilo. Minha mãe pergunta de cá se tem alguma coisa acontecendo – ê sexto sentido que essa mulher tem, e eu obviamente pulo direto para a cama, porque se ela souber que andei espionando um pouco que seja, eu estarei em maus lençóis. Cantarolei qualquer coisa para abafar o som e não alardear a casa e fechei como pude a janela a fim de apresentar a ela, que já se aproximava, que eu estava apenas aproveitando mais um tempo ocioso trancada naquele quarto.

No dia seguinte, meu endereço estampado na televisão e a notícia de que aquela moça que todos admiravam era mais uma vítima de abuso em casa. Infelizmente o pequeno também pagou pelos problemas plantados pelo pai. Nunca mais vimos aquela janela aberta novamente. Ficamos de cá, todos nus, sem escolha.

3 comentários:

Rosana Tibúrcio disse...

Que fórtê!!!

Laura Reis disse...

e foi escrito há algumas semanas, inclusive. eca.

Rosana Tibúrcio disse...

ó só!!!