Sobre sonhar e não acordar

Acordou do sonho ruim cheio de letras e vírgulas, com vontade de anotar aqueles detalhes no bloco do criado-mudo. Eram tantos detalhes e tão confusos que serviriam para alguma coisa, com certeza. Nem que fosse pura lembrança.
Após anotar mais de uma página com trechos do que lembrava, guardou o bloco e ajeitou o travesseiro para voltar a dormir. Eram apenas 3 e meia da madrugada. Fechou os olhos e a primeira imagem que lhe veio à cabeça foi uma caneta e um papel. Não poderia ser um sinal para que anotasse o que estava pensando, pois acabara de fazê-lo.
Supôs, então, que era nada mais que um sinal confuso de que estava realmente precisando dormir. Virou pro lado da parede e avistou uma máquina de escrever. Uma máquina de escrever? Coçou os olhos e a parede continuava branca. Intacta, nada de adesivos ou desenhos de máquina de escrever.
Optou, desta vez, em vez de coçar os olhos, por ir até a cozinha tomar um copo d’água. Ao acender a luz do corredor viu um computador no espelho à direita. Chegou mais perto, encostou o indicador e não havia nada além de sua imagem refletida ali.
Um pouco nervoso, suspirou. Ao chegar à copa, todos os livros de seu filho estavam abertos em cima da mesa. Todos. Ao se aproximar pensou em coçar os olhos, virar para a parede, encostar o indicador, mas se lembrou de que tudo isso apenas o deixara mais confuso e preferiu se virar pra geladeira. Na porta havia um bilhete. Sorriu e voltou pra cama, sem beber uma gota de água.