Do que não fizemos

Sei que aproveitamos até muito bem todo esse tempo juntos, mas também sei que tínhamos ainda muitos outros planos a serem concretizados que agora apenas estarão aqui, documentados sem seus checks previstos.
Não chegamos a ir até a casa de nossos parentes distantes, para imergir de vez na cultura da outra família e entender um pouco mais de onde é que vem tanta mania e tanto costume. Iríamos ainda passear pela Argentina e tirar uma foto naquele painel de casal dançando tango, depois de eu muito insistir. Também iríamos à Europa, nos perder pelas ruas de Paris e não conseguir pedir a pizza certa na cantina italiana. Você saberia lidar com os estrangeiros muito bem, porque tem dom de fazer amizades instantâneas, e eu precisaria te corrigir com algumas palavras que estranhamente teriam ficado em minha memória depois de anos sem praticar.
Eu ainda ia fazer aquele jantar romântico com o prato especial que aprendi e a sobremesa que sempre soube e, iríamos também fazer nossas aulas de culinária, para conseguir garantir que pelo menos o jantar de uma semana pudesse ficar pronto.
Teríamos também nossa parede de relógios ganhados e comprados, como uma coleção em conjunto e bem bonita sobre o tempo e o nosso amor, esse que ainda precisava ser concretizado com todo o estresse de planejar um casamento e toda a sua falta de vontade em ceder uma ou duas músicas da cerimônia para que eu escolhesse.
Eu ainda precisava te ajudar a preencher as páginas daquele Moleskine temático com todos os shows que você já foi e nós também ainda iríamos fazer, pela ordem das páginas, aqueles desafios e tarefas do livro Veja como se faz.
Precisávamos também voltar àquela cidade em que passamos nossas primeiras férias juntos, depois de várias outras viagens, apenas pelo prazer de já se sentir em casa e refazer todos os programas, sabendo agora que não precisávamos aceitar indicações erradas de vinhos, porque já teríamos
conhecimento suficiente sobre o assunto; também não misturaríamos sabores de sorvetes que não combinem entre si (ou misturaríamos, só pra rir mais uma vez) e nem repetiríamos tanto os restaurantes, porque ainda precisávamos conhecer pelo menos aquele um que ficou para trás.
Pensando bem, todos esses planos ficaram bem melhor assim, desenhados de maneira nostálgica. Até porque se a melhor parte da festa é esperar por ela, a nossa pode muito bem ser "lembrar nitidamente do que nem aconteceu (mas poderia)".

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