O medo pode te levar longe... da noção do ridículo #ZéGotinha

Dia de vacina contra a gripe na empresa, eu com minha carinha de 16 anos chego até a sala para tomar a minha pequena dose, quando percebo todas as enfermeiras me olhando preocupadas - claramente o meu medo era visível.
Às vezes eu sinto que tenho mais medo de tomar vacina porque falo muito que tenho esse medo e, na verdade mesmo, esse sentimento nem existe. De qualquer forma, eu prefiro tirar sangue, mas isso não vem ao caso.,,
Cumprimentei as pessoas e me petrifiquei com a tal cara de desespero, enquanto uma enfermeira colocava a agulha no braço e a outra perguntava o meu nome - que eu precisei de 3 segundos pra conseguir responder (três segundos parece pouco, mas houve um tempo em que fazíamos ligações de longas conversas nesses poucos segundos, sim). Mas enfim, aí deu tudo certo, colocaram aquele adesivinho de criança e, enquanto eu me preparava para seguir meu caminho, me perguntaram se eu não queria ajudar a divulgar esse dia tão importante, recebendo a pintura de um Zé Gotinha na minha mão. Atordoada que estava, nem calculei que não fazia muito sentido essa proposta já que a dose nem tinha sido de gotinha, mas aceitei o convite. Enquanto esperava, olhei com cara de dó pro moço que tava com os brindes pra criança e obviamente ganhei uma pipoca e um pirulito, sim.
Na minha vez de pintar a mão, chegaram mais enfermeiros e assistentes e todos decidiram tirar uma foto de galera, comigo ali no meio exibindo minha pintura de Zé Gotinha, como quem exibe um anel de diamantes, mas era só tinta branca, azul e glitter mesmo. Uma celebridade.
Durante esse tempo em que meus colegas pensavam que eu pudesse ter desmaiado pela demora, cruzei com um conhecido e, enquanto passava por ele, fui exibindo a mão pintada e dizendo um sorridente “vamos vacinar?”, mas aí virou um episódio porque ele já foi me parando pra comentar que infelizmente não ia dar porque a esposa,era contra vacinas e, se soubesse que ele tinha vacinado, pediria o divórcio, mas ele gostava muito dela pra decidir enfrentar tudo isso agora. E eu com aquela reação de “mas gente...” (tantas pessoas pra eu exibir aquela pintura..)
Eis que uma hora depois, cruzei com o Diretor da empresa enquanto passava pela diretoria e, como qualquer bom cidadão que está com sua mão ilustrada de Zé Gotinha, mostrei pra ele repetindo o velho e bom “vamos vacinar?‘, no que recebo apenas um minimalista olhar de desprezo, que me levou a atitude mais plausível naquele momento que era ir direto para o banheiro lavar a mão pra tirar a pintura do Zé.

Mentira, porque continuei sendo a garota propaganda que, durante toda a tarde, lavando só a palma da mão, com muito cuidado para não perder a pintura belíssima e, agora sim, depois disso nada mais aconteceu, além do braço doendo no dia seguinte e a vergonha e o medo pintados de volta na minha cara, no lugar do Zé Gotinha.

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