"Retrospectiva intensiva de como foi me mudar de Patos de Minas pra Uberlândia, há 3 anos"
Continuo adorando ficar sozinha. Só não morei sozinha sozinha sozinha, de fato, porque não houve dinheiro suficiente. Ter achado boa companhia ou ter medo demais de barata para aguentar essa possibilidade de forma particular, também são bons argumentos.
Alguns hábitos nunca mudam: seja a matinal cara ruim, seja o lanche preferido, seja a ausência de desenvoltura frente a situações embaraçosas.
Entendi, na prática, que algumas pessoas devem executar apenas uma função em sua vida, como sair à noite, dividir um apartamento, conhecer de vista, ser amigo de infância, ser amigo esporádico. Não misture essas funções, se não tiver certeza ou se não for família. Misturou e deu certo? Segura isso aí, porque pode ser para sempre e único.
Mudei porque tinha uma casa e um bom trabalho garantidos. Nem mesmo um ano depois, percebi que nenhum desses motivos foi razão para continuar. Ainda bem que muitas outras coisas também mudaram.
Sobre mudanças, é difícil resumir quando tive pouco suporte real e ao vivo e muita dor de cabeça com processos e motivações. Exceto os transportes de malas e roupas, quanto a esses, não posso reclamar das ajudas e caronas. Mas em resumo e, a meu ver, mudança é um pé no saco mesmo e há que se ter muita preparação psicológica, emocional, logística e organizacional.
Em alguns finais de semana a única coisa que penso com alegria é que aqueles são “dias de ficar em casa vendo seriado, arrumando o guarda-roupa e limpando a casa, até que enfim!”. Porque é bom demais ter noites divertidas com pessoas queridas, mas certos dias a sua companhia há de ser melhor que qualquer outra.
Também é muito bom ter dinheiro e estrutura suficiente pra pagar alguém de confiança capaz de deixar o chão da sua cozinha brilhando. Mas, algumas coisas, só funcionam se você mesmo fizer. Descongelar uma geladeira pode ser chato, mas não ultrapassa o desgaste e o tamanho pé no saco que é o tal do varrer e passar pano no chão, essa tarefinha do mal. Entender e lidar com uma máquina de lavar é libertador e cheiroso.
Por bem ou por mal aprendi a lidar com as contas da casa, apesar de, claro, já ter dado um ou dois vacilos. Em tempo: coisas como ser honesta demais (pagar a mesma conta duas vezes) ou altruísta demais (pagar o condomínio do vizinho).
Nesse meio tempo, morei em três lugares, trabalhei em outros três e quase comecei em outros três. Ainda acredito que sei me localizar e conheço melhor Uberlândia que Patos.
Agora já sei marcar uma consulta, me virar para ir numa consulta, fazer os exames, comprar e tomar os remédios sem precisar que me lembrem. Inclusive já me consultei com quatro dentistas, duas ginecologistas, um oftalmologista, um ortopedista, um clínico geral. Conheci dois laboratórios, dois postos de saúde e dois hospitais. Peguei uns 12 atestados e trabalhei doente tantas outras vezes. Dei febre, dor de garganta, cólica, dor de dente e quase perdi a cabeça, de tanto que a danada doeu também. Só falta entender qual remédio cura o que – temo nunca aprender.
Passei quase uma semana sem água em casa, exatamente no momento de lidar com caixas de mudanças. E isso me fez, além de andar no sol atrás de água potável ou alguma outra bebida gelada, andar de ônibus até a outra ponta da cidade para tomar um banho no apartamento antigo, já cheio de nada e de eco. Pelo menos estava em boa companhia.
Ainda sobre ônibus, aprendi que continua sendo uma porcaria e que, se fosse para lidar apenas com ele na vida, não teria deixado nem mesmo aquele primeiro trabalho nem aquele primeiro apartamento. Era utópico estar em um ônibus em que eu podia deitar num banco e colocar os pés no outro e a mochila em mais dois. Nos que frequento atualmente, em poucas ocasiões (ainda bem), respirar é uma vitória. Um lembrete para sempre: perguntar não faz de ninguém pior. É melhor do que ir parar do outro lado de um parque, ao anoitecer, e ter que andar na BR até chegar num ponto para pegar outro ônibus de volta para casa só porque aquele primeiro ia direto pra garagem e eu estava apenas “testando novas possibilidades”. Lições.
Aprendi a mexer com Photoshop (e pausei essa atividade), comecei e concluí um curso de inglês, comecei uma pós-graduação. Juntei dinheiro na poupança, gastei dinheiro com coisas que valeram a pena e, claro, com passeios e férias tiradas depois de mais de dois anos sem lembrar como isso funcionava.
Tive as minhas melhores experiências gastronômicas, já que meu universo culinarístico é restrito e meus conhecimentos geográficos mais ainda. Já passei do melhor mexidão nosso de cada dia, até ao restaurante que custa os olhos da cara e não vale tanto a pena quanto aquele com cara de tradicional ou ao bom e velho hambúrguer com batata frita.
Apesar de ter perdido inúmeros shows, pude ir a vários dos quais tenho excelentes lembranças, mesmo quando ocorreu de a companhia ser somente a minha. Perdi muito evento que queria ter ido, deixei de ir a muito evento por falta de vontade de ir e tive que ir a muito evento porque tinha que ir, mesmo. Também perdi um computador, furtado, e alguns mil reais pelo caminho – porque, convenhamos, aluguel não é dos melhores investimentos.
Um lugar pode ser bonito, bem reconhecido, interessante, mas sem um clima harmonioso não há construção que edifique. Um lugar pode ser autêntico, jovem, livre, mas sem tato não há relacionamento que dure. Um lugar pode ser tradicional, ter boa imagem, boas pessoas, bom clima, mas chega uma hora que sorrisinho e cumprimento não pagam suas contas.
É triste aceitar que, em alguns tempos, nem mesmo um "opa, meu salário caiu" ou um "aqui o dinheiro " te deixam levemente contentes, porque você sabe que ali mora um aluguel, uma luz, uma internet e morre junto o desejo de um croassonho devorado depois de um dia de compras ilimitadas que nunca existiu.
Esse tempo também foi de entender que existem boas caronas e caronas dispensáveis. Depender é uma droga e, diferente de toda uma vida Patos, houve poucas vezes em que elas me foram o bálsamo que eu esperava ou mesmo merecia. Isso dentro da cidade, porque em relação às intermunicipais, temos doutorado em grupo, especializações e várias parcerias maravilhosas.
Pois bem, lá se foram muitos dias de 2013, 2014 e 2015, com várias companhias lindas por perto e lembranças que, se minha memória permitir, serão inesquecíveis.
Que 2016 seja rascunho pra um monte de novidades em matéria de aprender, entender, viver, aproveitar e vários outros bons verbos.
3 comentários:
que delícia. que saudade eu tava de te ler.
Fiquei sem Palavras... Texto Magnífico!!
Delícia de texto!.
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